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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O PERIGO DO SILÊNCIO OMISSO

Por, Pe. Joaquim Cavalcante

No último domingo fiquei impressionado com o evangelho proclamado na liturgia. Os verbos principais incitavam para uma atitude determinada. Eram eles: renunciar, tomar, seguir.


1. Renunciar a si mesmo: às vezes é preciso renunciar até o desejo de silenciar, quando a realidade pede para gritar. Tristão de Ataíde, grande pensador católico brasileiro, dizia: “quem tem uma verdade para dizer nunca a deve omitir”. O reino de Deus é a verdade absoluta da fé. Quem não renuncia a si mesmo não optar pela primazia do reino. Renunciar é dá precedência a Deus em tudo. Significa colocar Deus acima de tudo, de coisas e pessoas. Não deixar nada ocupar o lugar de Deus. Os cultores do niilismo existencialista se caracterizam pela dificuldade de reconhecer a primazia de Deus e do seu reino. Nietzsche, por exemplo, preferiu proclamar a morte de Deus. Dizer “Deus morreu, nós o matamos”, é declarar a dificuldade de admitir a existência do Criador. Ora, dizer que alguém morreu é dizer que existiu. Nietzsche é contundente, mas não intransigente. Ele não negou a existência de Deus. A filosofia antiga afirma que “o ser é e não pode não ser”, logo morrer é próprio de quem existe. Só morre quem nasce como Deus é incriado e eterno, não morre.

2. Tomar a cruz: é recolocar-se constantemente na esfera do amor e amar é superar o desejo de se ensimesmar, é lutar contra o egoísmo que nos impede de sermos fecundos na doação ao reino. Tomar a cruz é não acovardar-se no silêncio de uma omissão criminosa. O silêncio omisso, mais cedo ou mais tarde, causa remorso na consciência. O homem que não tem nada a dizer sobre a realidade que o interpela é um feixe de passividade, é um ícone equivocado do ser pensante. Tomar a cruz é ariscar a vida, é expor-se na defesa das causas justas.

Toda vez que o bem comum estiver ameaçado, todo silêncio deve ser rompido.

Lamento ter que referir-me, mais uma vez, a situação da saúde nesta centenária Itumbiara. A falta de uma UTI eficiente é um atentado à vida de todos que vivem aqui.

Louvável atendimento e atenção foram dados ao nosso Bispo Diocesano quando sofreu sérias complicações pulmonares. Sou grato e reconhecido por tudo que foi feito por ele pela administração pública. Contudo, surge uma pergunta: se dez ou vinte itumbiarenses necessitassem da UTI naquele mesmo dia, seriam todos levados em UTI aérea para Goiânia ou assistiríamos passivamente um funeral coletivo?

Pensar diferente do pensamento único tem o seu preço, mas é imperativo de cada cérebro. Quem se expõe por causa da justiça jamais será compreendido. Quem quer ser compreendido sempre opta pelo silêncio omisso. Esse não incomoda ninguém, mas não ajuda ninguém a mudar nada. Toda verdade é simples, difícil é dá transparência à verdade. Numa república de omissos a sociedade, no mínimo, seria acéfala com elevado índice de miopia. Tomar a cruz é assumir a coragem e os sentimentos de Cristo. É ser audacioso na proclamação da verdade sem perder a ternura.

Sofrer pela verdade é melhor que padecer por uma omissão covarde.

3. Seguir: O seguidor de Cristo deve está disposto a abraçar a mesma causa pela qual ele deu a vida. Afinal, o discípulo não é maior que o seu mestre. Quem assume o reino como valor absoluto jamais permanece indiferente frente às situações que o ameaçam. Seguir não é só caminhar atrás do mestre é doar-se como o mestre. Que o Senhor potencie em cada um de nós o desejo da doação e a capacidade de renunciar a tudo que nos impede de segui-lo todos os dias da nossa vida.

Pe. Joaquim Cavalcante é professor de teologia e Pároco da Igreja São Pedro e São Paulo

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